Covid19 em Campo Grande: população sofre com saúde e educação precarizadas
- NPC
- 27 de mai. de 2020
- 5 min de leitura
Paulo Coutinho, professor das redes municipal e estadual de Campo Grande fala sobre o papel das iniciativas populares durante a pandemia e os principais problemas causados pela má administração pública na crise.
Por Amanda Soares/NPC

No que diz respeito à pandemia, a Zona Oeste do Rio de Janeiro é considerada por especialistas da saúde uma bomba prestes a explodir. A combinação de pouca adesão ao isolamento social, saúde pública precarizada, dificuldade para sacar o auxílio emergencial e muita desinformação, formam um cenário favorável à propagação do coronavírus. Mas o que é pior, moradores de bairros como Campo Grande estão à mercê tanto da Covid-19 quanto dos efeitos sociais da pandemia, como o desemprego, e muitos até da fome. Desamparados pelo Estado, eles contam com a solidariedade e a boa vontade de voluntários para vencer as dificuldades. Um grupo dos moradores do bairro Santa Margarida e o coletivo Teia de Mulheres, que entregam cestas básicas aos mais necessitados, são alguns dos exemplos do próprio povo cuidando de si.
Com seus 328 mil habitantes (IBGE 2010), Campo Grande é considerado não só o bairro mais populoso do Rio como também do Brasil. De acordo com o Painel COVID-19 da Secretaria Municipal de Saúde, às 18h00 do último dia 25, Campo Grande registrava 912 casos confirmados. Na cidade do Rio, está atrás apenas de Copacabana, com 1.015 casos. Mas, nem os boletins nem o painel da Prefeitura atualizam diariamente o número de mortes causadas pelo coronavírus em cada bairro. A última contagem do número de mortes por bairros data do dia 15 de maio: Campo Grande até então registrava 83 mortes por Covid-19, superado apenas por Copacabana, com 88 mortes naquela data.
— “Campo Grande é periferia e não se chama assim à toa!”, conta o professor de história e filosofia Paulo Coutinho, um dos moradores do Santa Margarida que se juntaram para cuidar da rua onde moram, muito antes da pandemia. Sozinhos, eles passaram a recolher o lixo que se acumulava nas esquinas, fazer a capina e pintar o meio-fio. Quando o coronavírus chegou, eles tiveram de parar e fazer o isolamento voluntário, mas outros problemas ainda mais graves apareceram e Paulo e seus vizinhos se mobilizaram novamente.
Um dos moradores tocava um projeto de dança chamado “Forró da Caixinha”. Ele levava uma caixinha de som para a praça e as pessoas se juntavam ao redor para dançar. Quem quisesse, contribuía como podia. Quando o projeto parou, ele próprio sugeriu ao professor: —— “Pô, Paulo, tem muita gente passando necessidade, sem poder trabalhar. O que você acha de pegar o dinheiro da caixinha pra comprar cesta básica?”
“E foi o que a gente fez”, lembra Paulo, que é voluntário no coletivo Educação Popular Margarida Maria. Assim, é a relação de movimentos sociais com as populações mais necessitadas que faz com que programas sociais e doações cheguem a quem precisa, pois a Prefeitura não conhece as pessoas.
— “Eu sou professor, atuo no coletivo Educação Popular Margarida Maria e tenho um amigo que tem um projeto de arte também, chamado Lata Doida. Ele me ligou oferecendo 50 cestas básicas do projeto dele”, conta Paulo Coutinho, que se organizou com os vizinhos para buscar as cestas e distribuí-las no bairro.
Há também uma organização de mulheres de Campo Grande chamada Teia, que reúne moradoras e lideranças populares em Vargem Grande, Vargem Pequena, Recreio, Paciência, 29 de Março e Mato Alto. A organização recebe cestas básicas da Casa Fluminense e do programa “Rio Contra o Corona” e entrou em contato com Paulo. “Elas precisavam de um local para guardar as cestas básicas e perguntaram se poderíamos arrumar algum lugar aqui, que fosse institucional”, conta Paulo Coutinho. Inicialmente, ele procurou o Sindicato de Professores de Campo Grande, mas o prédio sofreu um arrombamento, sendo descartado por falta de segurança. Um centro de umbanda ofereceu o espaço, mas era distante do centro de Campo Grande. “Acabou vindo aqui pra minha casa o depósito das cestas, até conseguirmos um lugar institucional”, relata o professor.
Saúde

Morador de Campo Grande há mais de 40 anos, Paulo acompanhou as mudanças de políticas públicas para a saúde na cidade. O bairro onde ele mora é assistido por duas Clínicas da Família. Mas a população cresceu muito com o programa “Minha Casa, Minha Vida” e a cidade não se planejou. Para piorar, os médicos das Clínicas da Família foram demitidos e substituídos por enfermeiros. “Minha esposa, por exemplo, é diabética e já faz um ano que não tem atendimento”, reclama.
Educação
No dia 28 de março o MEC publicou uma diretriz do Conselho Nacional de Educação (CNE) que determina a continuidade do ano letivo, com conteúdo adaptado para o ambiente digital. Mário avalia que a diretriz apesar de manter o ano letivo, ignora limitações que a vida da periferia impõe aos alunos, dificultando ainda mais o complicado aprendizado remoto via internet, o que ele tenta explicar:
— “Trabalho em uma escola estadual na favela da Coreia, onde as incursões policiais continuam durante a pandemia Os relatos que os alunos nos fazem são de cortar o coração... Eles falam que é difícil fazer as atividades nos horários indicados, porque quando tem operação, são proibidos de acender luz, cortam os fios de eletricidade e internet…”
Ele considera que o formato da educação remota não é adequado para o ensino de jovens e adultos. “Na rede Municipal onde eu trabalho com jovens e adultos, em Senador Camará, de uns anos pra cá, vem se multiplicando o desrespeito à educação desse grupo mais velho. Com a Pandemia, o CNE impõe a “educação remota” a toda rede, a todos os níveis educacionais. Jovens e adultos que estão longe da escola há 10, 15 anos, com letramento precário… Como fazemos educação a distância com essas pessoas? Não dá!”, lamenta.
Além das dificuldades de aprendizado que acarreta, a medida exige uma mudança radical das práticas pedagógicas. Conforme Paulo Coutinho, todas essas mudanças se dão sem que o corpo docente seja capacitado adequadamente para enfrentar os novos desafios. As Secretarias de Educação aderiram à mudança, mas Paulo, sindicalizado, consciente do abuso dessa determinação, denuncia:
— “Felizmente, eu tenho formação em educação a distância, então eu pude falar pros meus colegas que o que a Administração estava propondo não era educação a distância. Era alguma coisa adaptada, inferior, sem qualidade”.
O sagrado direito de espernear
Os problemas apontados pelo professor indignado atingem milhares de moradores de Campo Grande, independente das posições políticas pessoais de cada um ou de quem votaram nas últimas eleições. “A despeito de questões pessoais e ideológicas, olhando com olhar humanista, isso não pode funcionar, porque as pessoas não têm condições físicas, financeiras, emocionais para lidar com esse formato da educação remota. Não dá!”, avalia o professor.
Ele teme pelo futuro da escola pública: “Aquela chamada do Enem que exige: “estude de qualquer lugar, de qualquer maneira!”, eu só posso entender como eles querendo impor o modelo de educação à distância. Acabar com o prédio, com o professor, com as relações presenciais, o que certamente vai gerar mais exclusão ainda”.
(Amanda Soares faz parte da Rede de Comunicadores do NPC)
Comments