top of page

Quanto vale apostar a vida?

Núcleo Piratininga de Comunicação
há 4 dias
5 min de leitura

Mercado de apostas financeiras cresce rapidamente no país e afeta a vida de boa parte da população. Perdas vão além do problema financeiro


Por Isabella Barros, Vitória Sá, Jorge Luiz e Danielle Stephanie



As apostas esportivas deixaram de ser um passatempo e viraram rotina na vida de milhões de brasileiros. O mercado cresceu rapidamente no país e empresas investem fortunas em propagandas de televisão, patrocinam grandes times de futebol e pagam influenciadores digitais para divulgar suas plataformas. Nesse mesmo ritmo, aumentaram os relatos de endividamento, conflitos familiares e problemas relacionados ao jogo.


A facilidade de acesso agrava ainda mais esse cenário. O “cassino” funciona 24 horas por dia na palma da mão. A promessa é simples: colocar pouco dinheiro e ganhar muito. Para quem vive com o orçamento apertado, a aposta pode aparecer como uma oportunidade de fazer uma “renda extra”.


O apostador típico no Brasil tem rosto bem definido: é homem, jovem, entre 18 e 39 anos, e de baixa ou média renda, com ganhos de até dois salários mínimos. Atraído pela possibilidade de ganhar dinheiro rápido, esse público gasta, em média, R$100 por mês. Pode parecer inofensivo, mas o valor pesa no bolso de quem ganha pouco.


É nesse ponto que a aposta mostra seu potencial de destruição. O problema é que, quando a aposta deixa de ser uma tentativa eventual de ganhar dinheiro e passa a controlar a rotina, o que aparece como “renda extra” pode se transformar em um problema de saúde.


Um problema silencioso


Eduardo Luvizetto dos Santos, estudante que perdeu uma bolsa integral do Prouni depois que a universidade considerou movimentações financeiras da conta de sua mãe na análise da renda familiar, viu de perto como o problema das apostas ultrapassa o bolso de quem joga. A mãe de Eduardo recebia aposentadoria e passou a movimentar dinheiro em diferentes plataformas de apostas. As entradas e saídas apareciam no extrato bancário, mas não representavam um ganho estável. O dinheiro entrava e, muitas vezes, voltava para os próprios jogos.


Eduardo começou a notar mudanças na rotina da sua mãe. “Você começa a perceber que a pessoa vai ficando mal, vai mudando o comportamento e tentando esconder muito o celular. Eu percebi que ela estava jogando.”, lembra. 


A descoberta provocou um choque na família. Eduardo entendeu que o dinheiro perdido nas plataformas não era apenas dinheiro destinado ao jogo. Era dinheiro que poderia pagar contas, comprar comida ou garantir outras necessidades da casa.


Hoje, a mãe está sendo acompanhada por uma psicóloga e sem jogar há um tempo, mas Eduardo sabe que ela  não é uma exceção no seu ciclo social. Ao conversar com pessoas próximas, percebeu que muitos enxergam as apostas como uma forma legítima de complementar a renda.


A sorte pode ser considerada uma renda extra?


A lógica é parecida com a de qualquer trabalho informal: quando falta dinheiro, procura-se uma alternativa para aumentar a renda. A diferença é que, nas apostas, não existe garantia de remuneração. O dinheiro investido pode desaparecer em segundos. E, quando a pessoa perde, a própria plataforma oferece outra oportunidade de tentar recuperar o valor.


“Aposta quem quer” é uma das justificativas mais comuns para defender as plataformas, mas os relatos mostram que a questão não termina na escolha individual. 


O caminho até a dependência


Kauan, de 22 anos, conheceu as apostas aos 18, enquanto tirava a carteira de habilitação. Um amigo contou que estava ganhando dinheiro apostando pequenas quantias. Ele começou com R$5 ou R$10 em jogos de futebol. No início, a experiência parecia confirmar a promessa das plataformas: apostar pouco e ganhar muito. A lógica fez os valores aumentarem rapidamente. O que começou com pequenas apostas chegou a R$2 mil ou R$3 mil de uma vez. Em uma ocasião, chegou a apostar todo o salário de R$1 mil e conseguiu sair com mais dinheiro do que havia colocado. Para ele, porém, esse tipo de vitória faz parte do problema: “A sensação de ganhar chega uma hora que é basicamente igual a droga, aquele sentimento prazeroso. Quando você perde, é como se estivesse de ressaca. Você fica para baixo, fica deprimido.”


Aos poucos, a aposta deixou de ser uma possibilidade de ganhar dinheiro e passou a determinar o que ele fazia com o próprio dinheiro. Por volta dos 19 anos, menos de um ano depois de começar, Kauan percebeu que a aposta já estava presente em quase tudo. 


Uma bola de neve


A preocupação constante com dinheiro, dívidas e apostas fazia com que ele se sentisse mentalmente exausto. Nos últimos meses, Kauan começou a reorganizar a vida financeira. Trabalhou para pagar as dívidas e conseguiu ficar sem débitos. Foi nesse momento que percebeu o quanto a dependência havia alterado sua rotina. “Agora eu estou percebendo como é viver em paz, sem ninguém ficar em cima, cobrando.”, conta. 


Parar, no entanto, não aconteceu de uma vez. Kauan diz que ainda está tentando reduzir as apostas. “Se eu falar que não aposto mais, eu vou estar mentindo. Mas uma coisa que eu vivia sem controle hoje eu consigo controlar. Eu apostava nos sete dias da semana. Hoje, quando aposto, é um ou dois dias. Estou tentando evitar ao máximo para realmente parar.”


Para ele, o mais difícil é reconhecer que existe um problema enquanto ainda se está dentro dele: “Se uma pessoa me perguntar: ‘Devo apostar ou não?’, eu nunca indico. Eu sempre apresento os problemas, o que traz, o que acontece, para a pessoa ter ciência do que está fazendo.”


Problema Social 


Segundo levantamento do Banco Central, beneficiários do Bolsa Família transferiram R$3 bilhões para plataformas de apostas em agosto de 2024. O valor mediano transferido por beneficiário foi de R$100. Entre os apostadores, 70% eram chefes de família, responsáveis pelo recebimento do benefício. O dinheiro que entra nas plataformas não desaparece apenas de uma conta bancária. Ele deixa de ser usado para pagar contas, comprar alimentos, consumir serviços ou formar uma reserva financeira.


A ludopatia

O problema pode ir além da perda de dinheiro. A ludopatia, também chamada de transtorno do jogo, é uma condição de saúde reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e caracterizada pela dificuldade persistente de controlar o comportamento de jogar, mesmo quando as apostas já provocam prejuízos na vida financeira, familiar, profissional ou social. A pessoa pode passar cada vez mais tempo pensando em apostas, aumentar os valores apostados, tentar recuperar o dinheiro perdido com novas apostas ou continuar jogando mesmo depois de perceber as consequências. Também podem surgir ansiedade, irritabilidade, frustração, isolamento social e problemas nos relacionamentos. Em casos mais graves, o transtorno pode estar associado a depressão, uso problemático de outras substâncias e pensamentos suicidas. A dependência forma um ciclo difícil de interromper.


 
 
 

Comentários


bottom of page